Arquivo para outubro \29\UTC 2011

Modelos versus originais

Em minhas aulas de webdesign oriento os alunos no uso de modelos de layout no desenvolvimento de sites por diversos motivos:

– Criação de cultura visual. Navegar por entre imagens com grau de similitude (onde não mais se distingue o diverso ou o comum) é diferente de navegar por imagens que carregam grau de semelhança entre si (no conceito, tema ou estrutura). Para quem tem espírito crítico, é oportunidade de perceber que, por exemplo, a cor preta não se aplica normalmente ao tema alimentação. Para quem não tem cultura visual ou talento nato para desenho [*], é a chance de escolher um bom desenho antes de iniciar seu layout para a web.

– Encurtar a estrada entre a criação e a realização. Já tive alunos que insistiram em ficar na frente do Photoshop por uma semana sem produzir literalmente nada (!).

Apesar disso, tenho de reconhecer que do ponto de vista da criação, os templates/modelos padecem de um defeito inerente a sua função: não relacionam o conteúdo escrito com a informação visual. P.ex., por mais que um modelo para “site educacional” seja bonito, ele dificilmente dará conta de comunicar (no seu projeto visual) o conteúdo de minha apresentação (seja ela botânica ou eletricidade elétrica). E a iconografia utilizada dificilmente se justificará mesmo dentro do próprio contexto visual – porque aqueles traços semelhantes a um código de barras estão no topo do meu site, cujo fundo é uma textura de madeira?

Independente dos prós e contras, cada qual – modelo ou criação legítima – cumpre seu papel social. Quem procura ter uma presença na internet nem sempre deseja altos custos, e aí entram os sites de modelos com cadastros de domínio automatizados, e serviços disponibilizados em planos de pagamento. Ter uma presença na internet – assim como ter um cartão de visitas ou portfólio de trabalhos realizados – é o espelho de uma necessidade (por exemplo, se comunicar com os clientes ou ter um mostruário de serviços).

Por outro lado, contrariando o senso comum, os serviços “sob medida” acabam se valorizando em relação aos serviços “empacotados” (os famosos modelos, neste caso). Quem opta por ter um serviço original deseja, entre outras coisas, realizar algo que não existe no mercado, diferenciação ou algum tipo de excelência (no produto ou resultado obtido). Aí o webdesigner pode ver uma oportunidade de remuneração compatível com suas pretensões e anos de estudo, mas apenas se investir continuamente em sua formação. Inovação é diferencial e este só pode existir como fruto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

Eu particularmente acredito que o webdesigner pode atuar em pelo menos duas áreas “consagradas”: criação de novos serviços /produtos “empacotados” ou desenvolvimento de soluções customizadas. E ambas passam pela P&D. Um exemplo dentro do contexto deste artigo seria um serviço de construção de sites a partir de de modelos que trouxesse embutido serviços de chat em Flash, conectado a celulares; o outro exemplo já existe na praça: desenvolvimento de sites personalizados para estratégias de comunicação específicas, de grandes empresas. Em resumo, existe espaço para todos, resta a nós escolher sua área de atuação, com ou sem modelos.

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Nota:
[*] Vale lembrar aqui que, fazer layouts para web não pressupõe necessariamente formação clássica em desenho; muitos webdesigners/projetistas de internet famosos como Hillman Curtis não sabem desenhar à mão livre e isto não os impediu de alcançar prestígio na atividade; isto se explica muito pelo fato de que a geração atual teve acesso às facilidades da informática mais cedo que a geração anterior, e que, desenhar em computador- latu sensu – independe de precisão manual ou formação em desenho, e sim de cultura tecnológica específica – coisa que qualquer adolescente que passa horas navegando na internet possui de sobra, mesmo que não se dê conta disso.

Texto pubicado originariamente no site Catabits

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Contexto e conteúdo (1)

Fonte: Master New Media, foto de Stockxpert.com

Uma conhecida minha, comentando sobre um curso teórico (curto, de 4 aulas) que está fazendo sobre interfaces para web: o curso – curto – começou com a professora discorrendo sobre a história da web, o que aborreceu os participantes, que eram de áreas afins (mídia impressa, design, profissionais liberais) e queriam informações para aplicar em seus projetos.

Aqui cabe um paralelo com outra discussão sobre como deveria ser uma apresentação e a aplicação dessa discussão numa palestra técnica.

A discussão, em resumo, dizia que as apresentações devem ser objetivas, e o “contar a história do assunto” deve ser deixado para o final. Como num CD de música, a melhor parte deve ser exposta no início e a de menor interesse (bastidores do assunto) dever ser deixada para o final.

A palestra técnica que assistí foi estruturada assim: começou mostrando quais empresas no mundo utilizam aquela tecnologia, exemplos de jogos famosos que a usam, e, meio que contando a história de trás para frente, no meio passou o contar como a tecnologia foi – e está sendo – desenvolvida. No final, foi contado como a tecnologia surgiu.

Bem, no sentido linear (acadêmico ou livresco) da palavra a palestra está mal estruturada ou foi estruturada ao contrário. Porém, no momento atual, onde as pessoas tem necessidade de se informar rapidamente (as cobranças são rápidas!) fazer uma palestra “de trás para frente” faz sentido. Como de fato fez, a palestra foi aplaudida ao final.

Queria colocar aqui um ponto de vista complementar: palestra é diferente de curso, e cursos podem ser teóricos ou práticos, de formação técnica ou superior. Até num curso teórico o historicismo (muito criticado, pois as pessoas que usam esse tipo de abordagem se esquecem do objetivo de se estar contando “aquela história” para alguém) tem de ser medido para não fugir do tema.

Resumindo o conteúdo deve ser adequado ao contexto. E o primeiro deve fugir ao lugar-comum, para que possa agradar ao segundo. E como fazer isso? Bem, tenho em algumas propostas que não pretendem esgotar o assunto mas sugerir idéias de quem deseja fazer a apresentação de algum conteúdo e não tem uma guideline (ou diretriz) a seguir:

Utilize um modelo de layout que seja visualmente atraente. Todo mundo faz slides que são bem lidos apenas de perto (com letras miúdas) mas um bom layout faz até com que as pessoas esqueçam que o texto é (pouco) ilegível.
Pegando carona nessa idéia, se o slide tiver leitura mediana:

Parta do pressuposto de que você irá explicar a apresentação ao público e não lê-la. O texto é complementar ao que você vai explicar.
Mesmo assim:

Os slides devem ser auto-explicativos, pois muitas pessoas não poderão ir à sua palestra mas poderão querer ler um resumo da ópera.
Abrir espaço para perguntas dos espectadores pode ser uma forma de quebrar a linearidade de uma palestra.
Usar multimídia (internet, vídeos, animações, sites na web) para ilustrar sua apresentação – ou fazer comentários sobre ela – pode ser um recurso para contextualizar o conhecimento. Em meu mestrado o laptop ligado à web é utilizado largamente para ilustrar as aulas.
Boas ilustrações – boas fotos, tabelas, gráficos – podem ajudar a compreensão de um assunto essencialmente técnico. se puder ilustrar todas as telas de sua apresentação – criando um segundo nível de leitura, como os boxes e olhos no texto jornalístico – melhor ainda.
Mais sugestões de layout para seu slide:

O assunto tratado deve aparecer em todos os slides para contextualizar o tema, que pode ser longo. O subtítulo dos tópicos também devem aparecer em todas as telas que tratam deste tópico pelo mesmo motivo.
P.ex.: se o assunto for “Design dos anos 80”, ele deve aparecer no topo de todos os slides; se o subtópico for “Brasil”, este deve aparacer abaixo de “Design anos 80”, mas apenas nas telas que tratem deste assunto.

Para quem gosta de exibir um sumário de tópicos em todos os slides, destaque o tópico que está sendo exibido (slide não é instalação de software, que exibe as etapas percorridas com uma cor e as que restam em outra!).

A numeração dos slides (início/final – p.ex., 1/20) deve aparecer em todos os slides para que a platéia tenha uma espectativa da duração da presentação.

A última tela deve ter além do famoso “obrigado”, seu contato (tel, cel, email, ou site) para que as pessoas possam localizá-lo mais facilmente, sem recorrer a uma garimpagem no Google.

Use se possível imagens pequenas  .GIF ou vetoriais (.WMF, .EMF, .AI); a primeira tem número limitado de cores (256) e as demais são pequenas, comparativamente a imagens de qualidade fotográfica (.JPG, .TIF).

Conheça seu público previamente. No caso de um curso, uma conversa prévia com os espectadores é fácil, no caso de uma palestra a situação é mais difícil. Fazer pesquisas sobre o estado-da-arte do assunto é aconselhado, para não ter a surpresa de falar de um assunto já conhecido da platéia.

Conhecer assuntos paralelos ou concorrentes também é útil nesse sentido. No exemplo dado “Design dos anos 80”, pesquisar escolas de design locais (em vez do “International design”) ou arte popular podem ser complementos úteis.

Tudo que escreví são tentativas de fugir do óbvio ou do senso comum; não é receita de sucesso, mas um pequeno caminho das pedras para ajudá-lo a fazer algo mais do que um Powerpoint…

Outros textos relacionados:
Steve Notes (Artigo da Wikipedia descrevendo o método de Steve Jobs estruturar e fazer apresentações)
Dicas de storytelling / contação de histórias com Robert McKee (vídeos da Soap apresentações)
52 dicas de apresentações (em inglês)  (7,31mb) – PDF da SOAP e Robert McKee  com dicas sobre apresentações
How to enhance your web presentations  – Como incrementar suas apresentações para internet (tem links para ferramentas online para construção de apresentações)
Contexto e conteúdo (2)
Onde conseguir boas imagens para apresentações

Artigo publicado originariamente no site Catabits

Wallace Vianna é designer de internet e mídia impressa.